Uma experiência 100% cashless na Islândia

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Viajei por 10 dias pela Terra do Gelo e do Fogo – uma ilha de apenas 350 mil habitantes que passou grande parte de sua história isolada do resto do mundo – e não precisei usar dinheiro vivo nenhuma vez

Dando sequência à série de artigos sobre os Meios de Pagamento pelo Mundo, que começou com a Holanda, dessa vez vou contar sobre minha experiência um pouquinho mais ao Norte.

Vocês já devem ter ouvido falar da Islândia, uma ilha europeia localizada às margens do Círculo Polar Ártico. A localização faz da Islândia um dos países mais isolados e inóspitos do planeta: instabilidade climática, glaciares, gêisers, vulcões ativos – lembram do Eyjafjallajökull (sim, esse é o nome dele!), o vulcão que fechou grande parte do espaço aéreo europeu em 2010? 

Depois de saber disso, o natural seria imaginar que o país nórdico estaria bastante atrasado em relação aos meios de pagamentos, não é mesmo? Na verdade, espera-se que o desenvolvimento islandês seja muito inferior em diversos aspectos, principalmente quando comparado aos seus vizinhos europeus. Contudo, é aqui que nos surpreendemos: a Islândia é um dos países mais desenvolvidos do mundo!

No ranking 2018 do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) compilado pela Organização das Nações Unidas, a Islândia ocupa a 6ª posição (para fins de comparação, o Brasil está na 79ª). Já no quesito segurança, é líder absoluta: de acordo com o Global Peace Index 2019, a Islândia é o país mais seguro do mundo. Lá, os policiais sequer andam armados (nem mesmo na capital, Reykjavik). 

E um fato muito curioso: o país é tão, mas tão seguro, que é um hábito deixar os bebês em seus carrinhos para fora dos estabelecimentos. Sim, isso mesmo, os bebês ficam na rua enquanto seus pais fazem compras ou tomam um café. Mas, segundo os locais, esse costume está mudando pois a recente onda de turismo fez com que a polícia começasse a receber muitas denúncias falsas sobre crianças abandonadas. Pois é, essa é a idílica Islândia.

Mas a lista continua! 100% da energia vem de fontes renováveis, graças aos seus campos geotermais. Quanto à cobertura de internet, dizem já ter chegado em (quase) toda a ilha – a meta do governo é que 99% das residências e empresas tenham acesso a pelo menos 100Mbps de velocidade até 2022.

 

Meios de pagamento na Islândia

Achei importante começar este artigo com um panorama mais completo sobre o país, pois ele ainda é um mistério para muitos, assim como era para mim. E eu certamente não esperava que o nível de desenvolvimento fosse tão impressionante quanto suas paisagens naturais.

Alguns dias antes da viagem, fui pesquisar sobre os melhores lugares para fazer o câmbio de euros para coroas islandesas. Para minha surpresa, mais uma vez, a maioria dos sites e blogs dizia: nenhum lugar! Orientavam a não trocar a moeda pois o país inteiro aceitava cartão como meio de pagamento, inclusive na função débito.

Mas como faríamos a Ring Road – a volta completa na ilha – passando por locais muito remotos e nos hospedando em pequenos vilarejos, duvidei um pouco dessas informações. A maioria dos viajantes não faz esse trajeto e circula apenas na rota mais turística, o chamado Golden Circle. Então, como teria um dia todo na capital antes de pegar a estrada, decidi não trocar no aeroporto e perguntar para os locais quando chegasse. Se fosse preciso, faríamos o câmbio em Reykjavik.

Depois de conhecer um pouco a cidade, paramos no Centro de Informações Turísticas para perguntar onde, e se, deveríamos trocar os nossos euros. Explicamos que faríamos a volta completa e nos disseram que nem precisaríamos nos preocupar com isso, pois os cartões de crédito e de débito eram aceitos em todos os estabelecimentos do país. Acrescentaram ainda que lá não existem casas de câmbio, apenas os bancos são autorizados a realizar a troca de moeda.

Com um pouco de receio e sem nenhuma coroa islandesa no bolso, partimos para a nossa road trip na manhã seguinte.

 

“E se tivermos um imprevisto?”

Quando estamos em um país estranho, essa pergunta sempre fica no ar. E, nessas horas, ter dinheiro vivo nos dá uma sensação extra de segurança, não é? Vale ressaltar que não fizemos nenhuma parte do nosso roteiro de 10 dias com agências de turismo: alugamos um carro – devo dizer que um dos mais baratos, e não um 4×4 que costuma ser o mais recomendado – e seguimos a viagem de quase 1.500 km por nossa conta (e risco!).

Para quem não sabe, a Islândia é um dos lugares no mundo onde é possível ver a aurora boreal. O fenômeno natural acontece durante alguns meses do ano (normalmente, entre o final de setembro e início de março) e, em condições ideais e com uma bela dose de sorte, é possível assistir o espetáculo das luzes no ceú.

O melhor jeito para ver o fenômeno é acompanhar a sua incidência em um mapa online, o Aurora Forcast, que mostra a probabilidade de ocorrência, condições climáticas e de nebulosidade. Munidos dessas informações, partimos para nossa primeira noite de caçada à aurora. 

Como a melhor forma de vê-la é se afastando das luzes artificiais, pegamos uma estrada que saía da cidade e em menos de 15 minutos elas apareceram! O entusiasmo foi tanto que decidimos parar o carro, mas como quase nenhuma estrada na ilha tem acostamento, paramos no cascalho – e de lá não saímos mais.

Sim, no primeiro dia de viagem, tivemos que acionar um guincho para nos tirar de uma estrada no meio do nada, em um frio congelante, já perto da meia noite. O guincho veio da cidade mais próxima, Olafsvik, de apenas 1.000 habitantes. Nessa hora já estávamos certos que não conseguiríamos pagar no cartão e já juntamos todos os euros que tínhamos levado na carteira.

Mas na Islândia, mesmo os imprevistos são pagos com cartão! Depois de nos rebocar, o motorista tirou a maquininha e pronto. Pagamos com um certo desgosto, mas pelo menos pagamos no crédito.

 

Mas e o débito, funciona mesmo?

Durante a maior parte da viagem, optamos pelo bunq Travel Card (vou falar mais sobre ele e outros cartões em um próximo post), que é um cartão de crédito pré-pago com a bandeira da Mastercard.

Passando o cartão em uma conveniência de posto de gasolina em Akureyri, no extremo Norte da Islândia

Mas em alguns momentos também utilizamos o cartão de débito do Rabobank, banco onde abrimos uma conta bancária na Holanda. Ambos funcionaram em todas as ocasiões no modo contacteless e, para transações acima de um determinado valor, foi necessário colocar o PIN.

 

Pagamentos além do cartão na Islândia

Agora que já sabemos que os cartões são amplamente aceitos, e os demais meios de pagamento digitais?

Na capital, vi que algumas lojas e restaurantes aceitavam Apple Pay. Já no aeroporto, Alipay e WeChat também eram aceitos em praticamente todos os estabelecimentos, da livraria ao café. O que significa que a Islândia, mais uma vez, está à frente de outros países e mais preparada para atender o volume crescente de turistas chineses que visitam a ilha.

A conclusão só poderia ser essa: a Islândia é realmente um país cashless

Não precisar de dinheiro vivo para absolutamente nada, em um lugar tão remoto, é muito interessante: compras, estacionamento na rua, abastecimento do carro, guincho, cafezinho na beira da estrada… tudo pago no crédito ou débito. 

Uma experiência única em todos os sentidos.

Autor: Mariane Mazza

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